segunda-feira, 13 de julho de 2009

Conselheiro de Obama ao Ciência Hoje: «Países têm de inovar para manter a sua posição na economia mundial»


2009-07-13
Por Carlos Henrique



Wessner, conselheiro de Obama, diz ser enorme a diferença entre a nova administração e a presidida por George W. Bush em termos de ciência e tecnologia
Wessner, conselheiro de Obama, diz ser enorme a diferença entre a nova administração e a presidida por George W. Bush em termos de ciência e tecnologia
Charles Wessner, conselheiro do presidente Obama da Academia Americana de Ciências, explicou ao Ciência Hoje a necessidade de os países inovarem para manterem a sua posição na economia mundial. Fez esta afirmação durante um passeio pelo Porto e pelo Rio Douro onde se juntaram mais de duas dezenas de cientistas e investigadores internacionais que quiseram conhecer um pouco mais a cultura e história da cidade que acolhe a 12.ª Conferência Internacional de Tecnologia e Inovação (ICTPI’09) onde irão participar hoje e amanhã.


O passeio arrancou junto à Casa da Música
O passeio arrancou junto à Casa da Música
“Vou falar sobre as iniciativas da nova administração de Obama e como se encaixam nos imperativos das inovações globais como a necessidade de os países inovarem de forma a manterem, e não aumentarem, a sua posição na economia mundial”, salientou Charles Wessner levantando um pouco o véu da apresentação que hoje irá fazer durante o primeiro painel da conferência sobre o fomento da ciência e tecnologia e das redes de conhecimento para enfrentar a crise financeira.

Adiantou também que irá abordar um trabalho sobre avaliação de programas eficazes a serem adoptados por diversos países e que irá ainda explorar a situação do Valley of Death (deserto nos EUA) e respectivo retorno de investimento.

Os investigadores visitaram também a Ribeira do Porto
Os investigadores visitaram também a Ribeira do Porto
O conselheiro de Obama salientou ainda ser enorme a diferença entre a nova administração e a presidida por George W. Bush em termos de ciência e tecnologia. Contou que foram feitos grandes investimentos em novas tecnologias ecológicas como veículos eléctricos e tecnologia solar, foram aumentados massivamente os investimentos em empresas científicas e de investigação e até foi criada uma instituição para trazer uma nova abordagem a tecnologias de ponta.

“A mudança não podia ser mais entusiasmante para os cientistas norte-americanos”, sublinhou. Porém, Wessner acredita que os EUA não têm um sistema inovador perfeito e que a curto prazo a solução para a crise mundial não passa pela ciência e tecnologia já que ainda há muitos problemas a solucionar no sistema financeiro.

Passeando no Rio Douro por sob a ponte de D. Luís
Passeando no Rio Douro por sob a ponte de D. Luís
Defende, porém, que da crise se geram novas ideias e que é necessário investir em investigação e nas universidades. Sobre Portugal, considera simultaneamente ser uma vantagem e uma desvantagem estar na zona euro por, entre outros, ter um limite de défice que se situa nos três por cento.

Daimler, OCDE, Texas, MIT e Índia

Do passeio turístico, que começou em autocarros de dois pisos junto à Casa da Música e se prolongou por uma viagem de barco pelas seis pontes do Rio Douro, também participou Heinrich Flegel, vice-presidente do grupo Daimler (Mercedes-Benz). Flegel defendeu que “a manufactura traz riqueza para comunidade europeia” que tem “regiões muito fortes, a melhorar no futuro, como o Porto em Portugal, a região de Baden na Alemanha ou a parte norte de Itália”.

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Heinrich Flegel, vice-presidente
do grupo Daimler (Mercedes-Benz)
Sobre a ciência e a tecnologia, alegou não serem as únicas armas para lutar contra a crise já que primeiro é preciso “sobreviver e poupar” e depois “olhar para o futuro e fazer a escolha certa em termos de produto e ciência”. Ainda em investigação, considera ser crucial encontrar os tópicos mais importantes a investigar para o futuro para que seja possível tornar os diferentes países em regiões competitivas.

Por seu turno Pier Carlo Padoan, secretário-geral adjunto da OCDE, acredita que a única forma de contrabalançar a crise, e consequente redução do crescimento económico, passa por encontrar novas formas de desenvolvimento através de um aumento das políticas de inovação.

Pier Carlo Padoan, secretário-geral adjunto da OCDE
Pier Carlo Padoan, secretário-geral adjunto da OCDE
Ao Ciência Hoje adiantou que na conferência irá, por isso mesmo, destacar que a inovação é a chave para um crescimento sustentável, que a crise profunda está a atingir a inovação e que nas respostas dos governos à crise há muitos recursos a ser gastos que precisam de ser bem aplicados. “Estamos num momento crucial e esperamos que os governos e as comunidades de investigação aproveitem a crise como uma oportunidade”, clarificou.

Também para David Gibson, director associado do IC2 Institute da Universidade do Texas, não há outra hipótese para ultrapassar a crise que não passe pela ciência e pela tecnologia sendo o principal desafio descobrir como transformar o conhecimento em actividades capazes de gerar riqueza.

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David Gibson, director associado
do IC2 Institute da Universidade do Texas
Sobre o IC2 referiu que o instituto tem um bom ‘know-how’ que pretende hoje partilhar de forma a ajudar as empresas portuguesas a chegarem não só ao mercado norte-americano mas também a mercados internacionais. O instituto encontra-se a trabalhar com governos regionais para criar inovação e empreendorismo de forma a gerar empregos e riqueza. Como juntar diferentes tecnologias e criar novos produtos

Ainda dos EUA, concretamente do Massachussetts Institute of Tecnhology (MIT) estará James Utterback que hoje participa do mesmo painel sobre fomento de ciência e tecnologia. Ao Ciência Hoje referiu ter recentemente terminado um livro sobre como juntar diferentes tecnologias de forma a criar novos produtos e experiências e simultaneamente poupem energia e matéria-prima.

que apenas os engenheiros
podem fazer tecnologia" align="right">
Bathnagar diz ser errado
que apenas os engenheiros
podem fazer tecnologia
Sobre a crise e formas de a ultrapassar referiu não ter opinião formada, acrescentando que tempos de crise trazem novas ideias e que tal como nos anos 30 foram a época do rádio, do alumínio, do petróleo, da indústria automóvel, das auto-estradas e do alcatrão, também agora há muitas mentes jovens e criativas e espaço para que novas soluções sejam inventadas.

Do outro lado do globo veio Deepak Bhatnagar para apresentar, durante o encontro, casos de estudo da Índia e a forma como o TIFAC (Technology Information, Forecasting and Assessment Council) incentiva e apoia os jovens, as donas de casa, mães e mesmo pessoas sem qualificações a serem empreendedoras e a desenvolverem um projecto. Bathnagar considera ser errado o conceito de que apenas os engenheiros podem fazer tecnologia.

James Utterback  (Massachussetts Institute of Tecnhology, MIT)
James Utterback (Massachussetts Institute of Tecnhology, MIT)
O passeio pelo Porto terminou junto ao ponto de partida onde se irá realizar a conferência: a Casa da Música. Pelo caminho ficaram explicações sobre a festa do São João do Porto, a igreja de Massarelos, a Alfândega, o Castelo da Foz, o Museu de Serralves, o carro eléctrico, o farol de São Miguel entre outros. A estas acrescentou-se o Douro e as pontes, o cheiro a mar e a cálices de porto, a conversas cruzadas sobre o ontem e o amanhã. Porque antes da ciência e da tecnologia estava a história e o património e os caminhos abertos pelos descobridores rumo ao futuro.

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